quinta-feira, abril 24, 2003


REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO (I)

Começando pelo fim: é hoje que o cozinhado vai ao lume.

As alterações cosméticas são muitas, mas questões de fundo há poucas. Mudar qualquer coisa, para que (quase) tudo fique na mesma, evitando ao máximo o aparecimento de concorrência!

As últimas notícias, indicam que já há acordo quanto à questão das assinaturas necessárias para criar novos partidos: fica em 7.500 (por proposta do PS), a meio caminho entre o número actual e o inicialmente proposto. A proposta do PS de que a lei entrasse em vigor no dia 1 de Janeiro de 2004 foi rejeitada por todos os outros partidos (sintomático! - parece que o único que não se sente ameaçado pela Nova Democracia é o PS). Em princípio, entra em vigor a 14 de Maio.

Esta noite discutia-se ainda (entre PS e PSD, claro!) a questão de quando entraria em vigor o financiamento público dos partidos. O PS queria já e o PSD apenas em 2005. Interessante esta posição, dado que para umas coisas é uma data, para outras a data é completamente diferente!

É muito claro que o pedido de Jorge Sampaio aos partidos para que dignificassem a classe política e aproximassem os cidadãos das instituições democráticas não teve eco.

Para além de esta reforma ser apenas cosmética (e cirúrgica - ataca claramente PCP e ND), temos outros aspectos (que nada têem a ver com esta lei) e ligados à dignificação da classe política que continuam a ser uma vergonha. Refiro-me concretamente às questões da imunidade parlamentar do deputado do PSD Cruz Silva e à nomeação de Nobre Guedes do CDS para o Conselho Superior da Magistratura. São ambas uma vergonha e a sua não ocorrência faria muito mais pela dignificação da política portuguesa do qualquer lei que venha a ser votada pela Assembleia.

quarta-feira, abril 23, 2003


TUDO ISTO É FADO

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Se queres ser meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
É canção que é meu castigo
Só nasceu p'ra me perder
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer

Aníbal Nazaré

SERVIÇO PÚBLICO

Não posso deixar de chamar a vossa atenção para o blog Janela Indiscreta, que está cada vez melhor, cumprindo um verdadeiro serviço público na área da Cultura! A cada livro de que falam acontece-me quase sempre uma de duas coisas: ou vou procurar o meu exemplar para reler ou vou comprá-lo.

Infelizmente o tempo não dá para tudo...

E as gravuras, quadros e afins que reproduzem? Uma maravilha!

Parabéns a toda a equipa!

PARA QUE SERVE A OMS?

Os peritos da OMS estimam que a pneumonia atípica só é contagiosa quando surgem os primeiros sintomas. Para um vírus novo e desconhecido é muito estranho! E os resultados estão à vista: a epidemia está a tornar-se incontrolável.

Já há suspeitas em Hong Kong de que haja portadores do vírus que não desenvolvem a doença. A confirmarem-se estas suspeitas a sua disseminação será ainda maior do que o pensado inicialmente. E a política de enterrar a cabeça na areia seguida inicialmente pelas autoridades de vários países, nomeadamente a China, não veio ajudar nada à luta contra este flagelo.

Esperemos que rapidamente seja encontrada forma de o travar, antes que se transforme numa pandemia!

500 MORTOS POR DIA

500 hoje, 500 amanhã, 500 depois de amanhã...

Onde? Na África do Sul. Muito mais do que no Iraque durante a guerra.

Por quê? Porque uns imbecis quaisquer inventaram uma teoria segundo a qual os retrovirais não servem para nada e portanto neste país não são aplicados estes medicamentos aos doentes com sida. E isto apesar de decisões contrárias dos Tribunais. Que não são cumpridas pelo Governo Sul-Africano.

terça-feira, abril 22, 2003

NOITE

Encontraram-no caído
ao fundo daquela rua;
chamaram-no pelo nome, e era eu!
- O Poeta andava à lua
e adormeceu...

Foi o que disse e jurou
pela sua salvação
a Perdida
que viu tudo da janela...
E o guarda soube por Ela,
pelo pranto que chorava,
quem era na minha vida
o Guarda que me guardava...

- Andar à lua é proibido...
Mas Ela pagou a lei
por um beijo que lhe dei
antes ou depois de ter caído,
nem eu sei...

Miguel Torga in O Outro Livro de Job - 1936

NÃO ERA ESTE QUE ERA CONTRA O ATAQUE AO IRAQUE?

The Daily Telegraph

PERGUNTAS INOCENTES

Porque é que os iraquianos se manifestam agora contra o Saddam e contra o imperialismo norte-americano e britânico?

Porque é que o não fizeram antes?

segunda-feira, abril 21, 2003


RUDOLPH GIULIANI

Este fim de semana prolongado aproveitei para ler o livro "Liderar" de Rudolph Giuliani. Acabou por ser lido quase todo de seguida, de tão interessante que é.

É emocionante a descrição que ele faz de como passou o dia 11 de Setembro de 2001. Faz-nos simultaneamente recordar as terríveis imagens vistas na tv, mas também perceber um pouco o que foi passando pela cabeça dos nova-iorquinos e como foram organizados os socorros.

Ao longo do livro sucedem-se os exemplos concretos de acções por ele tomadas, quer no 11 de Setembro, quer noutras alturas da sua vida política. Ele defende que foi por estar bem preparado anteriormente que conseguiu ter um bom desempenho após a catástrofe do 11 de Setembro.

É sem dúvida uma magnífica obra, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista da gestão (em geral).

"Uma das melhores lições que um líder pode transmitir à sua equipa é que a ocorrência de problemas é uma coisa normal. O que é intolerável é não falar sobre eles ou , pior ainda, encobri-los."

"Queria perguntar «Por que não?» sempre que me disserem «Não é assim que se faz»."


Rudolph Giuliani

TEMOS DE SALVAR AMINA

A Suprema Corte da Nigéria ratificou a sentença de morte por lapidação de AMINA. A sua sentença de morte foi adiada para que ela possa aleitar o seu filho.
Foi marcada a data de 3 de Junho para a sua execução. Nesse dia, ela será enterrada até o pescoço e morta à pedrada. A não ser que uma avalanche de protestos em todo o mundo faça recuar as autoridades nigerianas.

A Amnistia Internacional está a pedir o seu apoio. através de sua assinatura, na sua página da web. Com uma campanha deste tipo, no passado, foi salva a vida de uma outra mulher - Safiya - que se encontrava na mesma situação.

Desta feita parece estar a verificar-se um certo alheamento da opinião pública internacional e o abaixo-assinado que pretende evitar a morte de AMINA recebeu ainda poucas adesões.

Vá a www.amnistiapornigeria.org e assine!

Não pense que não serve para nada!!!
E faça circular esta mensagem entre pessoas que possam sensibilizar-se com esta terrível e estúpida ameaça de morte.

TALVEZ NÃO FOSSE MÁ IDEIA CONTINUAR O TRABALHO DE CASA!

"Bem sei que a língua portuguesa é uma realidade dinâmica, em «permanente enriquecimento», como dizem os espíritos mais ecuménicos destas paragens.

Por sinal, estou muito longe de ser um purista. Recordo-me mesmo de ter abolido, nos meus primeiros meses na direcção do DN, o abominável «uísque», com o argumento irrebatível de que a palavra serviria, quanto muito, para qualificar a mixórdia de Sacavém. O genuíno, o escocês, neste jornal chama-se whisky.

Pelo caminho, perdi _ ou desisti de travar... _ outras batalhas semelhantes. Mas institucionalizaram-se algumas grafias da estranja, optando pela clareza em detrimento das arrevesadas traduções portuguesas. Enterrados ficaram _ espero que para sempre... _ monstros como «Francoforte» ou «Aquisgrano», a favor da simplicidade perceptível de Frankfurt e Aachen, ou Aix-la-Chapelle, na versão francesa.

Tratou-se, basicamente, de aplicar o bom senso à escrita «em português», aproximando o que se lê da forma como se fala, resguardando, naturalmente, um conjunto de princípios indispensáveis .

Muito mais intransigente sou, confesso, face a todo um novo vocabulário que entrou no nosso quotidiano a partir daquilo que vai sendo conhecido como «o português dos adolescentes». É um léxico que mistura influências tropicais _ africanas e brasileiras _ com bytes de linguagem informática.

Continuo a resistir, mas já percebi que é uma luta sem esperança, sobretudo depois de o novo Dicionário da Academia ter consagrado os mais recentes grunhidos do nosso dia-a-dia.

A última moda nestas expressões que surgem não se sabe muito bem de onde é a saudação que agora precede o desligar do telefone: «Então vá...»

Irrita e tem subentendido um autoritarismo que revolta os espíritos rebeldes. Eu não vou!"


Mário Bettencourt Resendes - Diário de Notícias

"... Haverão prémios...." - Regulamento Concurso Disney do Diário de Notícias

IMBECIL DE DIREITA

Sim! É claro que também há imbecis de direita. E este é o campeão!

"Sou de direita, mas também aprecio restaurantes de esquerda"

Telmo Correia

quinta-feira, abril 17, 2003

Para todos uma boa Páscoa!

SCONES

Misture (à mão) 18 colheres de sopa bem cheias com farinha, com 6 colheres com leite, 3 de açucar, um ovo, meia colher de manteiga e uma pitada de sal. Forme um rolo e deixe descansar a massa meia hora. Corte no tamanho desejado (atenção que crescem um pouco) e coloque num tabuleiro previamente untado com manteiga e farinha. Leve ao forno a cerca de 180/200 graus até ganhar cor. Retire do forno e sirva com manteiga ou doce.

Bons lanches!

Nota: todas as receitas aqui indicadas foram previamente testadas e aprovadas por toda a família!
LEI DOS PARTIDOS POLÍTICOS

Prepara-se uma nova lei dos partidos políticos. A actual (DL 595/74) tem quase 29 anos!

Independentemente de uma análise mais profunda a efectuar na próxima semana (até porque tanto quanto sei ainda só deram entrada oficialmente na Assembleia da República propostas do PS - 202/IX, PCP- 225/IX e BE - 266/IX), fica já um pequeno comentário.

Por aquilo que já se conhece, é óbvio que as principais alterações têem como destinatários o PCP, todos os possíveis novos partidos e os pequenos partidos. Quer as alterações ao financiamento (nomeadamente tornando-o quase exclusivamente público), quer o aumento do número de assinaturas necessárias para criação de um novo partido, quer ainda as disposições sobre organização interna, vão afectar todos menos os dois principais partidos, PSD e PS.

Sintomaticamente, também não é desta que são introduzidos os circulos uninominais, provavelmente com aquele argumento hipócrita da defesa dos pequenos partidos (coitados, com circulos uninominais é que eles desapareciam), quando o mais provável era serem os maiores partidos os mais prejudicados. Mantem-se pois o sistema vigente, claramente beneficiador do PSD e PS.

E isto leva-me a outra questão: tão importante quanto a competição entre partidos é aquilo que eles omitem dessa competição. É este um dos principais factores que tem permitido desde 1975 a alternância quase permanente entre PS e PSD (com a única excepção da coligação entre os dois, de 1983 a 1985). Há muitos temas que que são filtrados pelos partidos do sistema enquanto outros são minimizados na competição entre eles. É o caso por exemplo da ocupação do Estado: PSD e PS vão-se revezando no Governo; quando na oposição criticam (quase sempre ao de leve) os "boys" do outro, mas quando chegam ao poder, toca a preencher o máximo de lugares com os militantes.

Este tipo de comportamento só vem provar, como tenho afirmado, que o sistema está caduco: é necessário mudar comportamentos, políticas, pessoas e provavelmente partidos.

quarta-feira, abril 16, 2003


A CONCHA

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio