
Escrito por : Henrique Botequilha / VISÃO nº 446 20 Set. 2001 com Henrique Mano (em Nova Iorque), Luís Ribeiro, Miguel Carvalho e Paulo Pena
"Tony" Rocha
Um último telefonema
«O nome do meu filho vai ficar na história da América», acredita Augusto Rocha, 58 anos, pai de António Rocha, 34, corretor na Cantor Fitzgerald Securities. A empresa ocupava os pisos 101, 103, 104 e 105 da torre norte do WTC, a primeira a ser atingida pelos pilotos suicidas. António estava no mais alto. «Estes ataques marcaram os EUA e vão mudar o mundo», diz Augusto, director bancário radicado na América há 30 anos.
Confirmando os piores receios da família, o corpo de Tony foi encontrado no domingo, 16, sob as ruínas das torres. Tony deixa a mulher, Marylin, uma luso-americana de 29 anos, e dois filhos: Alyssa, 3 anos e meio, e Ethan, de 6 meses.
Como todos os dias, naquela terça-feira Tony tinha entrado no escritório às seis da manhã. O seu trabalho, como chefe da sala de operações, depende dos fusos horários, recebendo informações dos mercados europeus para as transmitir às praças latino-americanas e asiáticas. Enquanto assiste de lugar privilegiado ao nascer do sol em Nova Iorque, comunica via Internet com um primo, residente em Aveiro. O diálogo acaba pouco depois das oito, momentos antes de um avião chocar contra o edifício.
Nesta altura, Augusto Rocha estava a iniciar o seu dia nas Bahamas, onde dirige uma unidade do Unibanco, do Brasil. O banho matinal é interrompido por uma chamada do filho mais novo, Jason, 21 anos. «Pai, pai, o WTC está a arder, o Tony está preso.» Augusto liga a TV e assiste ao segundo impacto em directo. Tenta marcar o número de Tony, mas este não atende. O seu último telefonema fora para Marylin: «Um avião bateu contra o WTC, há fogo, muito fumo, mas não te assustes...» A mulher não compreende as últimas palavras e deixa de o ouvir. «Devia estar atordoado com o fumo», crê Manuel Marques, 68 anos, o sogro.
Augusto, para chegar a Nova Iorque, começa uma saga que lhe levará quatro dias. Os aeroportos estão fechados e as comunicações são impossíveis. Conseguirá atingir Palm Beach, na Florida, de barco, onde esperará que o espaço aéreo seja restabelecido.
A responsabilidade de apurar o paradeiro de Tony cabe a Jason, bem mais perto dos acontecimentos, já que reside com a mãe, Rosa Rocha, no Soho. Dirige-se, rapidamente, para a mercearia de Alcina Tiago, 46 anos, amiga de duas décadas da família. Ela ainda está aterrada com aquilo a que acabara de assistir: «Uma bomba que passou por cima das nossas cabeças contra os prédios grandes.» Pela sua mercearia passa toda a comunidade portuguesa de Soho.
A baixa de Nova Iorque entra em estado de sítio. As pessoas desapareceram das ruas. Jason parte com o filho de Alcina, Patrick, 18 anos, à procura do irmão. Hospital atrás de hospital.
A família concentra-se na casa de Tony, num bairro elegante de East Hanover, em New Jersey. Quando Augusto Rocha chega finalmente, confirmam-lhe a morte do filho. O corpo já está identificado pelo cunhado, Chris Trucillo, com quem programara gozar férias nas Caraíbas, na segunda quinzena de Setembro.
Embora tenha crescido na América, Tony falava português sem sotaque. «Tinha uma fantástica capacidade de aprender e era muito forte em números, como eu, acho que pegou os meus genes», recorda o pai. Em 1994, já com o curso de administração de empresas concluído, Tony casou com Marylin Marques, na catedral de Newark. Namoravam há sete anos. Além de um homem de família, Tony tornou-se num respeitado corretor e, ao fim de uma ligação de oito anos à firma Garban Financial Market Securities, em Wall Street, aceitou o convite da Cantor Fitzgerald Securities. Esta empresa perdeu 700 dos seus mil funcionários, entre os quais o irmão do próprio presidente ? que revelou, num depoimento dramático, que só não estava no escritório porque se atrasou ao deixar o filho no colégio.
Augusto Rocha espera que antes de atacarem os árabes, os americanos «identifiquem os culpados e que os chamem, se possível, à justiça». Ele não quer que o filho entre na história pelos motivos errados.
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Antonio Rocha a bond broker at Cantor Fitzgerald, met his wife 12 years ago at amutual friend's wedding.They have two young children. "He was a good person. He was a smart person," said his wifeMarilyn. "He loved his kids."
Rocha of East Hanover, N.J., also loved his job at Cantor, which he started in June. He previously had worked at another securities firm in the World Trade Center. Born in Portugal, Rocha was the handyman that family members counted on when thingsneeded fixing.
--The Associated Press
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For Antonio Rocha, one of the best things about having kids was that it gave him an excuse to go back to Disney World. Mr. Rocha, who brokered bonds at Cantor Fitzgerald when he was not bonding with Goofy and Mickey, had made the pilgrimage three times with his wife, Marilyn, and once with his wife and daughter, Alyssa, and he looked forward to taking his son, Ethan, who was born last March.
"He was just a big kid," Ms. Rocha said. "One of the last things we did together was go down to Point Pleasant" - on the Jersey Shore - "and he rode on all the rides with Alyssa, the teacups and everything like that." Mr. Rocha, 34, loved to take Alyssa riding on the back of his bike near their home in East Hanover, N.J. He even played with Barbie dolls with her.
Of course Mr. Rocha had some slightly more grownup interests, too. He traveled all over the country to see Formula One car races. He loved to golf.
And he even approached his vacations with a certain degree of seriousness, planning every last detail. In mid-September, the Rochas were to take their first trip with Ethan, to St. Lucia. Marilyn Rocha still has the stack of hotel listings and restaurant menus. "I'm going to definitely try to take that trip someday," she said, "stay at the same hotel, eat at the same restaurants. It will be the easiest trip to plan."
Profile published in THE NEW YORK TIMES on January 6, 2002.
