domingo, dezembro 25, 2016

DIA DE NATAL - ANTÓNIO GEDEÃO

Hoje é dia de ser bom.


É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,


de falar e de ouvir com mavioso tom,


de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


 


É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,


de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,


de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,


de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.


 


Comove tanta fraternidade universal.


É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,


como se de anjos fosse,


numa toada doce,


de violas e banjos,


Entoa gravemente um hino ao Criador.


E mal se extinguem os clamores plangentes,


a voz do locutor


anuncia o melhor dos detergentes.


 


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu


e as vozes crescem num fervor patético.


(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?


Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)


 


Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.


Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.


Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas


e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.


 


Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,


com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,


cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,


as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.


 


Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,


ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.


É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,


como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


 


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.


Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.


E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento


e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.


 


Mas a maior felicidade é a da gente pequena.


Naquela véspera santa


a sua comoção é tanta, tanta, tanta,


que nem dorme serena.


 


Cada menino


abre um olhinho


na noite incerta


para ver se a aurora


já está desperta.


De manhãzinha,


salta da cama,


corre à cozinha


mesmo em pijama.


 


Ah!!!!!!!!!!


 


Na branda macieza


da matutina luz


aguarda-o a surpresa


do Menino Jesus.


 


Jesus


o doce Jesus,


o mesmo que nasceu na manjedoura,


veio pôr no sapatinho


do Pedrinho


uma metralhadora.


 


Que alegria


reinou naquela casa em todo o santo dia!


O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,


fuzilava tudo com devastadoras rajadas


e obrigava as criadas


a caírem no chão como se fossem mortas:


Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


 


Já está!


E fazia-as erguer para de novo matá-las.


E até mesmo a mamã e o sisudo papá


fingiam


que caíam


crivados de balas.


 


Dia de Confraternização Universal,


Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,


de Sonhos e Venturas.


É dia de Natal.


Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.


Glória a Deus nas Alturas.